sábado, 11 de abril de 2009

Como te pressinto





Não, estes não são tempos angustiantes...são tempos limpos, de aproveitar as coisas mínimas, tempos vãos, para celebrar os detalhes imperceptíveis, alcaçar a felicidade no quase nada...

E, como há tempo, há saudades, do bem que foi, não menor nem inferior ao que é

Mas de uma diferença incrível...


Para celebrar a certeza de que toda dor é superada e superável e com a certeza de que o que nos salva são as memórias do bem,


em homenagem a isto vamos de Neruda:



Como te Pressinto


Como te pressinto nessas horas tristes,


pesadas de tédio,


todas amargadas pelo sofrimento.


Dando-me o consolo,


de tuas mãos brancas,


dando-me esse afeto


de teus claros olhos


tímidos e bons.


... E como pressinto

o alegre sorriso


de teus lábios frescos,


o sorriso triste de meus lábios velhos.


Nessas longas horas,


de fastio amargo,


eu sinto que brotas


do triste silêncio.


Como te pessinto,


como te pressinto.



foto:http://2.bp.blogspot.com

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A velhice nossa de cada dia...

Ia contar que me entreguei à Sommerset, como foi e as grandes conseqüências disto... Porém essa vai ficar pra depois, uma vez em que, em meio à Maughan (sim, ele o Sommerset), Páginas nas Telas (meu livro reportagem da tese de pós, curso de tradução de poesia (que tem me rendido pérolas como o descobrimento da poesia russa) e `otras cositas más`, achei mais um texto incrível do Luís Carvesan, meu colunista predileto da Folha. Fala sobre o envelhecimento e em meio ao contexto, narra o quão envelhecidas ficam as pessoas quando acabam seus amores. É interessante para percebermos o quanto a `falta de amor´envelhece TODAS as pessoas e o quão iguais são seus efeitos em TODAS as pessoas. Segue o texto, em pormenores:







Segue o texto, em pormenores:




Jovens velhos e nem tanto



Encontro uma leitora-que-virou-amiga, dois anos depois. Mudou de curso na faculdade (caiu na armadilha do jornalismo...), estudou cinema um tempo no exterior, descobriu as pontes do Monet, permanece fiel às baladas, amores consistentes, aí vem a revelação:
- Estou ficando velha...
Sabe quantos anos tem a anciã da minha amiga?
22!
Sim, meros, doces, frescos e promissores 22 aninhos.
- Mas estou me sentindo velha, ué, nunca pensei que fosse envelhecer.
Bem-vinda ao clube, querida, disse, e em vez de azucrinar a cabecinha dela com aquele papo de "velho sou eu, você está na flor da idade, relaxa e goza, não me humilha...", fui por outro caminho.
- Olha, pois eu acho que eu nunca envelheci, embora meu corpo não concorde com isso. Eu tenho, há mais de duas décadas, uns 25 anos. É verdade, nada que é jovem me preocupa, assim como nada que é humano me surpreende (esta é do Turgeniev...).
Permanecer jovem sendo velho é aceitar essa diferença crucial que impede o entendimento da vida como ela é. O contrário, não sei, não...
Conversa vai, conversa vem, ela se revelando: encontrou um novo amor, quase um ano juntos, apaixonados, a ponto de ele baixar na cidade do exterior em que ela estava, só para vê-la; planos, muitos planos, morar juntos, ganhar o mundo, viver a vida, ser feliz daquele tipo de felicidade que na juventude é, ao menos aparentemente, a melhor coisa do mundo.
E ela me conta ainda que por causa desse relacionamento mudou, supostamente para bem, muita coisa de seu próprio comportamento, passando a ser mais responsável, consequente, menos transgressora e passando a perceber e respeitar seus próprios limites.
- Um amor que faz crescer, entende?
De repente a decepção: sei lá, mil coisas na cabeça do cara, estou confuso, acho que ainda gosto de uma outra lá que segundo ele tinha ficado na poeira da história, sei que vou me arrepender, mas c'est finit...
E lá se vai todo o encantamento, toda a perspectiva, o piso que sustentava a possibilidade de uma vida nova e bela, a caminho de um crescimento a dois, saudável e bom. Foi-se.
Dói, muito, humilha, destroça, enraivece, mas uma hora passa.
- Será que passa?
- Até uva passa, meu bem...
No entanto, deixa, sempre e inexoravelmente, resquícios.
Na hora da conversa nem pensei nisso, só me dei conta depois.
Ela ficou velha...
Ou pelo menos sente-se envelhecida, porque jogou toda a sua juventude nas mãos de um amor frustrado, que não teve a manha de entender a delicadeza, a fragilidade, a lindeza de sentimento que rola na cabeça de quem tem 22 anos e quer amar muito a vida que Deus lhe deu, ainda mais com uma paixão do lado.
Estava errado, o cara?
Talvez não, poderia ter sido mais cuidadoso, talvez, mas nem sempre isso adianta muito também
Tampouco está errada minha amiga.
Infelizmente, pode-se dizer a ela uma frase do Tolerância Zero: "Bem-vindo ao pesadelo da realidade, playboy", porque desilusão amorosa é, sempre, um pesadelo.
Minha amiga não é playboy, é garota inteligente que luta para ser alguém decente e de bem. Com certeza vai se tornar uma ótima jornalista e, "velha" aos 22, ainda tem muito tempo pela frente para descobrir que rugas, dores, amores e dissabores nos tornam, na possível capacidade de renascer, jovens para sempre.
Até depois dos 50, sabia?
Luis Carvesan: 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

sábado, 4 de abril de 2009

Pega pra Capar de Bumba meu Boi...






Estive ontem na badalada sabatina da Folha de S.P sobre a reforma da Lei Rouanet.A mim, que há muito não aparecia por aquelas bandas, impressionou o quanto a Folha consegue, mesmo em meio à crise, permanecer com ares de insituição ´nada me aborrece`
O tal evento, capitaneado pelo ministro Juca Ferreira, todo-poderoso da Cultura pós Gilberto Gil, teve uma platéia de famosos e interessados : eram globais, (de ambas centrais de jornalismo e produção),produtores, gente da comunicação.Todos, com aquele jeito de `este é o momento mais importante do mundo`.
Eu, que fui parar pela Barão mais por interesse em saber da última do governo do que pela pautinha que tenho fechada (isto é para uma mensal, ou seja demora), me deparei com aquele ar convencional de maior instituição de reportagem do Brasil. Para quem não pertence àquele universo, é impossível pensar, dentro da FOLHA que todos os jornais do país sofrem uma crise absurda.
Mas a pauta do dia era a o maior meio de capitação para a cultura do país, a Lei Rouanet, que viabiliza mais de 5500 projetos culturais/ ano, do Oiapoque ao Chuí. E ela está para ser reformada, ao que parece, para que se consiga ter uma distribuição mais criteriosa do dinheiro disponibilizado por meio de renúncia fiscal, meio de captação mais utilizado no país.
Mediado (bem pouco, por sinal), pelo editor de cultura da folha, Marcos Augusto Gonçalves o debate foi aberto pelo ministro com um power point sobre o Agora e Depois da Rouanet.
Pra começar, ´os números da injustiça`:

92 % dos brasileiros não freqüentam museus,
78 % nunca assistiram a
um espetáculo de dança,
90 % dos municípios não tem cinemas, museus,
14 % vão ao cinema mensalmente
42% do dinheiro da Rouanet ficam em projetos na região sudeste
menos de 1 % é o qu e o Espírito Santo (estado desta que vos escreve), recebe.

Etc, etc... e todo um quadro triste, tão conhecido.
Aí, começou o ataque a lei atual: ela torna a produção cultural dependente da renúncia fiscal (que obviamente é insuficiente para atender à todos), estimula a má distribuição, já que em última instância, as empresas patrocinadoras fazem opções pelos projetos que querem patrocinar, e é claro escolhem os que são melhores á sua visibilidade.
Segundo as palavras de Ferreira, nem 30 % do que é liberado consegue ser captado e em época de crise, as empresas recuam, ou seja, menos patrocínio na praça, escusa perfeita para a reforma. Aí começou com mais um festival de discrepâncias: 3 % dos proponentes captam metade do dinheiro disponível e os processos são demoradíssimos, já que (sim, ele assumiu) o ministério não dá conta da demanda e muito menos com a qualidade ideal.
Bateu ainda, e pesado nas Organizações Sociais (sociedades civis), que, por seus argumentos, disputam recursos públicos com produtores independentes. E acusou os produtores utilizarem a renúncia fiscal em detrimento do FICART (fundo para empréstimos) e do F.N.C (fundo nacional de cultura):
"_Dinheiro de graça todo mundo quer."

Depois de dados e argumentações ministeriais, foi a vez de João Sayad, secretário de cultura de S.P e o “pega pra capar” começou! “Tranqüilo e calmo”, iniciou o discurso, ´alfinetando´ :
“Embora eu adore ouvir o sotaque bahiano, Ministro, me surpreende um pouco a confusão proposta por sua fala...” e foi-se embora: defendeu que quando se apóia um projeto cultural em determinado estado, não significa estar agindo em detrimento de outro;
“ Se o dinheito da Rouanet é usado para patrocinar um evento com Ivete Sangalo, isso significa está apoiando a Bahia? Por que? O Paulistano, o mineiro,o carioca não ouve a Ivete?”
Continuou:
“O fato da OSESP ficar em São Paulo não significa que ela deixe de ser bem cultural brasileiro e inclusive, mundial. Ela pode ser ouvida por gente de todos os lugares e é pra mim, um orgulho que exista, ainda que eu não goste de música erudita.”
O eixo central de sua fala foi que ao invés de reforma da lei, que causa insegurança a todo um mercado dependente dela, o ministério deveria estar batalhando por aumento de verbas:
“_ É momento de utilizar toda a parceria possível e não de brecar recursos.”
E ainda que o ministério da cultura deveria brigar por mais verbas, ao invés de restringé-las:
“ A cultura já leva menos de 0,8 do orçamento do governo. Querer diminuir isso não é definitivamente, papel do ministério da cultura e sim do da Fazenda .”, colocando que enquanto a esfera federal conta com 800 milhões por ano para a cultura, o estado de São Paulo sozinho, tem 500.
Pisou feio na calcanhar de Ferreira.
Lembrou ainda que erros crassos de patrocínios passados (como o escândalo Cirque Du Soleil, que em 2007 contou com cerca de R$ 9 milhões e cujo acesso foi restritíssimo), seriam causados pelo mau gerenciamento da Lei ou, seja não justifica a reforma:
“_Se é um problema gerencial vamos resolvê-lo com todos os canais que temos, e não restringi-los.”, pontuou.
Nesta linha de combate, continuou o produtor Paulo Pélico, cuja alfinetada-mor foi vértice das respostas `bastante acaloradas`do ministro:
“O fato das empresas que recebem incentivo fiscal não apoiarem o o Boi-Bumbá não justifica a reforma da Lei.”. Pronto, chegava o momento epifânico da noite. O argumento número 1 do governo é que o dinheiro da renúncia fiscal vai em sua maioria esmagadora para o endinheirado sudeste.
Na cabeça de Pélico, quem tem que bancar as menifestações que não despertam o interesse empresarial, é o já mencionado Fundo Nacional da Cultura, ou seja, defende mais uma vez que não há porque reformar a lei



“_Dizer que apoiar Boi Bumbá não justifica a reforma de Lei é a prova viva de que, quem tem o acesso não quer perdê-lo.Vocês vão acabar atraindo uma antipatia para São Paulo. Todos tem direito ao acesso á cultura, inclusive o Piauí, Amazônia, o Nordeste.”,
Pélico respondeu calcado em estudos que, grande culpada pela concentração de recursos em determinadas regiões do país é a insana burocracia:
“_Não dá para ninguém buscar incentivo federal com uma estrutura simples. Há de se ter no mínimo, assessoria contábil e jurídica. Isso em si é excludente.”, acrescentando que a esmagadora maioria dos projetos que a Rouanet aprova, são do Sudeste porque produtores menos capacitados não conseguem lidar com a burocracia.
Segundo ele, a lei funciona e para exemplificar, mencionou os sete filmes indicados ao Oscar nos últimos 10 anos, enquanto antes disso, a última vez havia sido na década de 60. Pélico tocou ainda em um ponto crucial: o projeto de reforma não tem regras claras para a liberação de financiamento.
Sabe-se que haverá um afunilamento, porém ninguém sabe como proceder, em caso de mudança real:
"_As regras são muito subjetivas."
Foram estes dois discursos, a pedra no sapato de Juca Ferreira.
“_Secretário Sayad, o senhor é economista, por isso tenho que apelar para que volte para os números.” E voltou aos números que embasam sua teoria de que, tal qual é, a Rouanet é excludente e privilegia estados do sudeste e grupos que já tem acesso.
VisiSobre a falta de verbas, Ferreira afirmou e reafirmou que desde que Gil chegou ao ministério que se tenta incessantemte aumentar a verba para a cultura e que se conseguiu: de 0,2 para 0,6 % do orçamento. Disse ainda que a reforma é uma tentativa de distribuir melhor o que se tem:
“O recurso não é só mal distribuído geograficamente, como até dentro da própria São Paulo, não é todo mundo que tem acesso à cultura.”

E disparou:
“_Quanto eu vim aqui , sabia que ia enfrentar isso, pessoas resistentes à mudança. No tempo da abolição da escravatura as pessoas também não queriam mudanças. Não é assim que se evolui, mas com idéias, cabeças pensando juntas.”


Quando colocado na parede sobre os supostos cinco anos que o projeto teria para receber o patrocínio, Ferreira afirmou que naquela tarde a P.L havia sido mudada, ou seja, essa questão do tempo não seria um entrave.
Visivilelmente exaltado,repetia todo o tempo a `história do bumba meu boi` como exemplo do de `postura resistente à mudança`, por parte dos paulistanos e foi ao mesmo tempo, aplaudido e vaiado pela platéia. Pélico, insistia para responder aos ataques à questão `Bumba meu Boi`:
“Eu tive que fazer uma verdadeira ioga para escutar a sua fala. Fiquei aqui contando nos dedos, um, dois, três.Por favor agora, escute a minha.” e continuou seu discurso dizendo que, em momentos de crise, manter a Rouanet como está é um verdadeiro desastre, que ele não assumirá .

Pega pra capar à parte, teve o `moço do Itaú Cultural`(Daniel Saron) que disse que faltam dados concretos sobre o retorno trazido pelo investimento em cultura no país (provavelmente uma das colocações mais lúcidas da noite).

E o captador Yacoff Sarkovas, que `meteu o pau´no mecenato, com toda a razão:
“ Patrocínio no Brasil é banco imobiliário. A empresa finge que dá o dinheiro, que na verdade é de mentira e a impressão que se passa é que uma hora, mamãe vai chamar pra dormir e tudo vai acabar.” E foi categórico:
“Reforma nenhuma resolverá isso”.

Verdade. No Itaú "de" Saron, 50 % do dinheiro investido em cultura vem de incentivo público. A Rouanet, `de` Ferreira, é mesmo, e cada vez mais a muleta da produção cultural brasileira e ponto. Por outro lado, como diz Sayad, não é sua extinção que vai resolver isso.

Resta saber, o que , de concreto, dá pra ser feito. Porque entre justificativas, ataques, e alfinetadas, os critérios de avaliação do Projeto de Lei ainda estão na subjetividade total.
E, de falta de equilíbrio de político em discurso, o pessoal que assina o cheque (no caso nós), já está cheio.



LINK DA VERSÃO OFICIAL do negócio, que a FOLHA publicou hoje (sábado)...
FOTO: www.blig..com.br



Garapa: mais uma sessão de `porrada`.




Lendo uma entrevista da envida da Folha de S.P ao Festival de Berlim, sobre GARAPA, último documentário de José Padilha, ela contava que ao final do filme, a única reação da platéia foi um longo silêncio.
Sim, o aclamadíssimo diretor do documentário Ônibus 174, (que inspirou o longa do Barretão) e diretor de Tropa de Elite, desta vez resolver falar de fome.Mas de fome velada, aquela em que não se tem tão pouco, que com o mínimo que se tem, se luta.
Filmado nos cafundós do nordeste brasileiro, dentro de casas de gente de verdade, o problema do filme é justamente este. É verídico demais. Em preto e branco, com cores de seca, sem trilha sonora, com cara de tudo o que ninguém quer ver.
O filme, de 2008, conta a história de três famílias, subnutridas, em casas aonde falta tudo. Até leite para a mamadeira das crianças (e são várias), falta, aí vai na garapa mesmo. No `mundo de lá`, garapa é água fervida com açúcar e intenção de que alguém vive daquilo.
Em recente entrevista, Padilha disse que um dos principais desafios da produção foi o de conseguir não dar comida aos participantes do filme; uma agonia.
Há uma hora em que a produção dá um analgésico a uma criança que chora de dor de dentes e o pai acredita que o menino esteja curado. Miséria tem adjacências.
Além da miséria, estão lá seus anexos: alcoolismo, ignorância, regiões em estado de subdesenvolvimento total, falta de perspectiva. Em uma das cenas, o documentarista pergunta ao pai de uma das famílias porque eles não tentam evitar filhos, já que não conseguem alimentar os que tem. E escuta um sonoro:
“_ É Deus que dá. ”
E a esposa faz coro:
“_Eu não me dou com pílula... Se é pá pegá, pega.”
“_E quantos filhos a senhora tem?”
“_ É 11.”
Completa, às lágrimas, que `as veiz eles pedi merenda, aí eu tenho que dizê que num tem.”
Uma tristeza. Ao menos é verdadeira.
Ponto positivo do filme é o nú e cru, sem maquiagem. Não é, definitivamente, uma dramatização montada para celebrar a miséria alheia. Ponto positivo para o governo Lula, que populismos á parte, fez um fome zero, que não resolve, mas dá um prato de comida a quem vive de garapa. Ponto positivo para o diretor, que tem feito de sua vida profissional uma denúncia constante e tão necessária. Ponto negativo para a humanidade, que ainda tem 920 milhões de famintos e se mostra incompetente demais para resolver isto.

Foto: divulgação